A saudade para de ser o que te puxa para baixo e começa a ser o que te empurra para frente.
Se a gente sofre é porque a gente foi feliz com essa pessoa.
E voltar a sentir alegria não é trair quem você perdeu. É a maior homenagem que você pode prestar a ela.
Se você perdeu alguém que amava e ainda carrega esse peso no peito sem saber como atravessar...
Se você acorda toda madrugada e a dor aparece antes mesmo de você estar totalmente acordado(a)...
Se você sente culpa toda vez que ri, se tem medo das datas que se aproximam no calendário, se ouviu "seja forte" tantas vezes que não aguenta mais fingir que está tudo bem...
Então essa carta foi escrita para você.
Eu sei que isso pode parecer muito distante de onde você está agora.
Quando a dor é profunda, qualquer fala sobre leveza parece um desrespeito. Mas existe um caminho para chegar lá.
E nesta carta, eu vou te mostrar esse caminho…
Sou médica especialista em luto há mais de 30 anos.
Conhecia cada teoria, cada protocolo, cada estudo…
E quando perdi meu pai, nada disso me preparou para a dor visceral de acordar e perceber que ele não estava mais ali.
Eu, que ensinava as pessoas a atravessarem o luto.
Mas em certo momento, percebi que estava lutando contra a dor, em vez de atravessá-la.
Estava tentando superar porque era isso que todos esperavam de mim.
Mas a dor não era minha inimiga. Era o meu amor que continuava vivo, sem saber para onde ir.
Você não perde a pessoa que você ama todos os dias. Você perdeu uma vez.
E sabe o que eu descobri depois de mais de 30 anos sentada do lado de pessoas em luto?
Que a morte tira a pessoa do tempo concreto, do mundo onde você podia vê-la, tocá-la, ligar para ela…
Mas antes, preciso te contar
o que esse caminho não é…
Não é sobre superação.
Não é sobre terapia que medicaliza a tristeza e te pede para tomar algo para seguir em frente.
Não é sobre procurar um hobby para “ocupar a mente”.
E, definitivamente, não é sobre ser forte.
A nossa cultura é uma cultura imatura que não sabe lidar com o sofrimento das outras pessoas.
Uma cultura voltada para silenciar o que não precisa ser silenciado, só precisa ser sentido.
Quando você tem uma dor muito intensa e ela não é reconhecida como legítima, isso aprofunda a experiência de dor.
E aí ela fica, e fica, e fica…
Você fica preso(a) num dia que não acaba, enquanto o mundo ao redor segue em frente.
Eu entendo porque passei exatamente por isso…
Mas ela não tira a pessoa do seu tempo interior, do mundo da memória e do significado.
O amor daquela relação não desaparece.
E quando você entende isso, a dor não some, mas ela muda de lugar dentro de você.